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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

INTRANSITIVO


INTRANSITIVO - Poema de Tarso Correa

Sou casca, sou recheio,
Sou liso e certeiro,
Sou áspero e indefinido,
Verbo intransitivo;
Sou interrogação, exclamação, ponto final, poucas vezes ponto e vírgula,
Sou doce e sal,
O ínfimo da partícula,
Sou pele, ossos e alma,
Fogo e água, terra e ar,
Mansidão ou vulcão,
No mar uma vaga sem direção.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Sem titulos, uma forma de protesto

Poema de Tarso Correa

Será que vale um rio?
Será que vale uma montanha?
Será que vale vidas?
Vale sim um vazio,
Um vale de lama,
Um vale de lágrimas,
Um vale que não é mais um vale;
Um vale sem valer é apenas um rejeito,
Um tanto de dor no peito,
De ver e ter tudo desfeito.
Será que vale?

terça-feira, 13 de novembro de 2018

RELICÁRIO DE SAUDADES

RELICÁRIO DE SAUDADES - POEMA DE Tarso Correa

No quarto vazio, encostado a um canto,
Um relicário de saudades de seis portas,
Pulsava lembranças e nublava meus olhos,
Descortinando o manto do passado;
Em cada objeto pinçava histórias,
Memórias vividas compartilhadas,
Um guarda roupa, cápsula do tempo;
Em cada porta aberta, aroma de coisa guardada,
Lençóis, cobertores, roupas embrulhadas,
Retratos, cartões, recordações materializadas;
E neste curto trajeto, percorri anos,
Sorri, chorei;
Em cada cantinho uma surpresa;
Navegando ao mesmo momento
Entre a alegria e tristeza;
A cada espaço esvaziado, uma porta fechada, uma despedida,
De uma vida que passou;
Deixando suas marcas e manias impressas;
Neste regresso, lavo meu coração no lamento,
Deitando o aperto do peito
No leito do amor deixado,
Abraçado pelo calor do afeto.

sábado, 1 de setembro de 2018

REFLEXO ATEMPORAL

REFLEXO ATEMPORAL - poema de Tarso Corrêa


Sou invisível, algumas vezes;
Causo estranheza, repulsa; quase sempre,
Mas mesmo que me menosprezes;
À minha presença, teu corpo pulsa, lateja,
Em convulsões de náuseas,
Pois sou a tua parte mais carente;
A que rasteja agarrada às rédeas da tua fragilidade,
A qual escondes, mas que perto de mim, és latente,
Que queima tua face, tua alma, teu ego ardente.
Não tenho privilégios e nem preferências,
Minha companheira são minhas carências e meus sortilégios,
Sou do mundo, das ruas;
Que desvelam nuas, nossos segredos mais profundos;
Meu teto são as estrelas, as núvens;
Minha cama um papelão, um chão,
Que me absorvem, envolvem na neblina do álcool,
De um sono profundo e puro de um querubim.
A casa que moro é sem teto, a comida que como, é sobra tua;
As roupas que uso, são descartes teu;
Mas meus sonhos são meus!
Este corpo fétido, roto, machucado, esfolado,
É o que sobrou de um longo passado meu.

sábado, 16 de junho de 2018

A MORTE DO POETA

A MORTE DO POETA - poema de Tarso Correa

A morte para o poeta não é física,
E sim de sentimentos;
Que se apresenta tísica,
Esquelética e ressequida,
Nublando a dor não sentida,
O amor não correspondido;
É viver e não ver,
A cor e seus matizes,
O cinza, suas sombras e cicatrizes;
É não abraçar, não viver e morrer,
É simplesmente se perpetuar em um só momento.

terça-feira, 1 de maio de 2018

PÍLULAS DE LIBERDADE

PÍLULAS DE LIBERDADE - poema de Tarso Correa

Cartelas de comprimidos jogados ao chão,
De vários gostos e cores que provocam letargia e ilusão;
Deitado na cama, em minha solidão,
Num sonho longo, mirando o teto com minhas pupilas dilatadas,
Vejo o filme desconexo da minha vida,
Que se esvai na baba gosmenta que sufoca a minha tristeza entalada;
Um fim, sim um fim;
A única saída encontrada,
Por não ter e ver sentido,
Em tanta dor, em um mundo sem cor
Sem solução, num mundo de desilusão;
Sim, um fim;
Pelo menos no final, coloro o adeus,
Em capsulas multicores,
Dando fim as minhas dores.

domingo, 4 de março de 2018

EROSÃO DA INFÂNCIA

EROSÃO DA INFÂNCIA - POEMA DE TARSO CORREA

Pulseirinha de miçanga,
Chinelo de dedo;
Em casa uma boneca estragada, jogada num canto,
Igual a vida desta criança,
Perdida entre a inocência e o medo;
Uma vida tragada pela falta de oportunidades,
Em um mundo indiferente e de maldades;
Da penúria do dia,
Para a penumbra da noite;
Batom nos lábios infantis,
Saboreada por olhos vis;
Enclausurada na estrada, esquina de um posto de gasolina;
Trancinha no cabelo,
Púbis sem pelo,
Transpirando cheiro barato de lanolina;
Por dez reais, não mais,
Para matar a fome,
Comprar o arroz com feijão,
Mais um dia, uma noite de incertezas, desilusão,
Na boleia de um caminhão,
Vendendo o corpo miúdo, ainda em formação;
Olhinhos assustados, com lágrimas que secam antes de cair,
Sugando sonhos não sonhados,
Lavados pelo gosto amargo do dinheiro,
Da pureza que esvai rasgada pela violência e a doença,
De uma vida diluída, da infância a sucumbir.

INTRANSITIVO

INTRANSITIVO - Poema de Tarso Correa Sou casca, sou recheio, Sou liso e certeiro, Sou áspero e indefinido, Verbo intransitivo; Sou in...