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terça-feira, 13 de novembro de 2018

RELICÁRIO DE SAUDADES

RELICÁRIO DE SAUDADES - POEMA DE Tarso Correa

No quarto vazio, encostado a um canto,
Um relicário de saudades de seis portas,
Pulsava lembranças e nublava meus olhos,
Descortinando o manto do passado;
Em cada objeto pinçava histórias,
Memórias vividas compartilhadas,
Um guarda roupa, cápsula do tempo;
Em cada porta aberta, aroma de coisa guardada,
Lençóis, cobertores, roupas embrulhadas,
Retratos, cartões, recordações materializadas;
E neste curto trajeto, percorri anos,
Sorri, chorei;
Em cada cantinho uma surpresa;
Navegando ao mesmo momento
Entre a alegria e tristeza;
A cada espaço esvaziado, uma porta fechada, uma despedida,
De uma vida que passou;
Deixando suas marcas e manias impressas;
Neste regresso, lavo meu coração no lamento,
Deitando o aperto do peito
No leito do amor deixado,
Abraçado pelo calor do afeto.

sábado, 1 de setembro de 2018

REFLEXO ATEMPORAL

REFLEXO ATEMPORAL - poema de Tarso Corrêa


Sou invisível, algumas vezes;
Causo estranheza, repulsa; quase sempre,
Mas mesmo que me menosprezes;
À minha presença, teu corpo pulsa, lateja,
Em convulsões de náuseas,
Pois sou a tua parte mais carente;
A que rasteja agarrada às rédeas da tua fragilidade,
A qual escondes, mas que perto de mim, és latente,
Que queima tua face, tua alma, teu ego ardente.
Não tenho privilégios e nem preferências,
Minha companheira são minhas carências e meus sortilégios,
Sou do mundo, das ruas;
Que desvelam nuas, nossos segredos mais profundos;
Meu teto são as estrelas, as núvens;
Minha cama um papelão, um chão,
Que me absorvem, envolvem na neblina do álcool,
De um sono profundo e puro de um querubim.
A casa que moro é sem teto, a comida que como, é sobra tua;
As roupas que uso, são descartes teu;
Mas meus sonhos são meus!
Este corpo fétido, roto, machucado, esfolado,
É o que sobrou de um longo passado meu.

sábado, 16 de junho de 2018

A MORTE DO POETA

A MORTE DO POETA - poema de Tarso Correa

A morte para o poeta não é física,
E sim de sentimentos;
Que se apresenta tísica,
Esquelética e ressequida,
Nublando a dor não sentida,
O amor não correspondido;
É viver e não ver,
A cor e seus matizes,
O cinza, suas sombras e cicatrizes;
É não abraçar, não viver e morrer,
É simplesmente se perpetuar em um só momento.

terça-feira, 1 de maio de 2018

PÍLULAS DE LIBERDADE

PÍLULAS DE LIBERDADE - poema de Tarso Correa

Cartelas de comprimidos jogados ao chão,
De vários gostos e cores que provocam letargia e ilusão;
Deitado na cama, em minha solidão,
Num sonho longo, mirando o teto com minhas pupilas dilatadas,
Vejo o filme desconexo da minha vida,
Que se esvai na baba gosmenta que sufoca a minha tristeza entalada;
Um fim, sim um fim;
A única saída encontrada,
Por não ter e ver sentido,
Em tanta dor, em um mundo sem cor
Sem solução, num mundo de desilusão;
Sim, um fim;
Pelo menos no final, coloro o adeus,
Em capsulas multicores,
Dando fim as minhas dores.

domingo, 4 de março de 2018

EROSÃO DA INFÂNCIA

EROSÃO DA INFÂNCIA - POEMA DE TARSO CORREA

Pulseirinha de miçanga,
Chinelo de dedo;
Em casa uma boneca estragada, jogada num canto,
Igual a vida desta criança,
Perdida entre a inocência e o medo;
Uma vida tragada pela falta de oportunidades,
Em um mundo indiferente e de maldades;
Da penúria do dia,
Para a penumbra da noite;
Batom nos lábios infantis,
Saboreada por olhos vis;
Enclausurada na estrada, esquina de um posto de gasolina;
Trancinha no cabelo,
Púbis sem pelo,
Transpirando cheiro barato de lanolina;
Por dez reais, não mais,
Para matar a fome,
Comprar o arroz com feijão,
Mais um dia, uma noite de incertezas, desilusão,
Na boleia de um caminhão,
Vendendo o corpo miúdo, ainda em formação;
Olhinhos assustados, com lágrimas que secam antes de cair,
Sugando sonhos não sonhados,
Lavados pelo gosto amargo do dinheiro,
Da pureza que esvai rasgada pela violência e a doença,
De uma vida diluída, da infância a sucumbir.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

EMBOCADURA SOCIAL

EMBOCADURA SOCIAL - POEMA DE TARSO CORREA


É pouco chão para muita bunda,

Muito alfabeto para poucas cabeças,

Muito cabresto para muitos eleitores,

Muitos controles para muitas letras mortas;

São formigas nas trilhas tortas,

Seguindo hipnotizadas pelos seus coletores,

Sonhando acordados sonhos que os favoreça,

Carregando nas costas corcundas,

O peso do flagelo da ignorância,

De um mundo sem oportunidades,

De uma vida mesquinha em desalinho,

Limitada, atolada;

Da infância à velhice mergulhada na passividade,

Em plena anulabilidade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

LADAINHA DO SERTÃO

LADAINHA DO SERTÃO - poema de Tarso Correa

A terra rachada,
Como a sola dos meus pés,
A alma magoada, amarrada,
Engaiolada igual passarinho;
Ninho de aguapés;
A boca seca,
Vazia sem som,
Como o rio morto que não corre mais,
Terra de sal,
Pasto de cupinzal;
No horizonte as cores amareladas,
Como o fogo na terra,
A dor de uma guerra, luta sem fim,
Carcaças embalsamadas, perdidas no solo,
Na cabeça os sonhos desfeitos;
Magoa que não passa e pereça;
Fonte sem água,
Crianças sem colo,
Assustadas de olhos esbugalhados e barrigas inchadas,
Arrastadas por suas mães, mulheres prenhas do sertão;
Os calos das minhas mãos,
Batem no cabo da enxada o cascalho,
Cavando nãos;
Em ritmos do suor molhando o chão;
Um vazio arranhado, desta terra abandonada;
Que ressequida choras suas lágrimas secas;
Destes corpos sofridos,
Que lutam os sonhos perdidos;
Na lamúria dos pés arrastados,
Das caminhadas pelo chão de terra batida,
Levando a lata na cabeça,
A água barrenta,
O pagamento pela resistência,
Sofre o povo,
Sofre o bicho
Bicho morre,
O povo resiste.

RELICÁRIO DE SAUDADES

RELICÁRIO DE SAUDADES - POEMA DE Tarso Correa No quarto vazio, encostado a um canto, Um relicário de saudades de seis portas, Pulsava le...